Em uma sociedade que, por séculos, ensinou as mulheres a competirem, se calarem e carregarem sozinhas suas dores, criar e nutrir laços femininos é um ato de resistência. A força que nasce quando elas se reconhecem nas vivências umas das outras transforma o que antes era solidão, em acolhimento.
Marcada por uma trajetória sem apoio e um relacionamento materno fragilizado, Débora, cabeleireira e mãe solo, é um exemplo dessa revolução. Ela encontrou em sua filha e em seu trabalho um caminho para curar feridas antigas e ressignificar o que é ser mulher.
Débora cresceu enfrentando o silêncio e a dureza de um ambiente que não abraçou suas vulnerabilidades. Sozinha, precisou aprender cedo a se proteger e a dar conta de tudo. Quando se tornou mãe, decidiu romper o ciclo: queria ser para Isis aquilo que nunca teve. Criou a filha com afeto, escuta e presença, mesmo nos momentos em que a vida exigia mais do que ela poderia dar. Para a cabeleireira, a maternidade não foi só responsabilidade, mas uma chance de reconstruir o sentido do amor.
Hoje, no salão especializado em curvaturas que mantêm em conjunto, ambas cuidam de cabelos enquanto zelam por histórias. Ali, mulheres encontram estética, amparo, pertencimento e incentivo para se olharem com mais ternura. Cada cliente é um reflexo da própria trajetória de Débora: mulheres que tentam se encaixar, que foram desacreditadas, que carregam inseguranças e que, ao cruzarem a porta do salão, encontram uma rede viva de apoio.
Entre corpo e espírito, renovando os fluídos
Embora sejam situações inerentes à vida em comunidade, os vínculos femininos impactam a individualidade de cada mulher desde a infância, justamente porque os primeiros contatos sociais surgem dentro do ambiente familiar.
Segundo a psicóloga e fundadora do Núcleo de Estudos em Psicologia Feminista, Lavínia Palma, a identidade feminina é extremamente influenciada pelo tipo de relação desenvolvida entre mães e filhas, madrastas e enteadas, avós e netas ou mesmo tias e sobrinhas. A explicação está no conceito de transgeracionalidade, que representa a transmissão de valores, crenças, dores e normas de convivência de uma geração para outra.
Ao mesmo tempo que perpetuam noções machistas historicamente normalizadas e ensinadas, esses comportamentos impossibilitam a criação de conexões profundas e acolhedoras entre as integrantes de uma família. Parte da problemática também está ligada às práticas de socialização, que são vividas de maneiras distintas por homens e mulheres, como expõe a psicóloga Priscila Sanches.
Para acabar com a sabotagem da confiança feminina, é necessário cessar o ciclo de violências. Mulheres podem inspirar suas descendentes a criarem novas mentalidades e direções, já que elas próprias lidaram com várias desigualdades e inseguranças ao longo de suas trajetórias. Por isso, ainda que instintivamente, elas desenvolveram ferramentas de superação às opressões impostas pelo patriarcado.
Além de recomendar o letramento de gênero — ou seja, a conscientização sobre as condições culturais que envolvem a vida feminina —, especialistas listam o exercício da empatia como estratégia fundamental para reinventar os laços. “As mulheres carregam uma potência imensa, mas foram condicionadas a caber em papéis e rótulos que limitam sua expressão e sua liberdade. Quando nos apoiamos e nos fortalecemos, transformamos não apenas nossas relações afetivas, mas também a maneira como ocupamos o mundo”, aponta a terapeuta holística Patrícia Cassariego.
Individual e coletivamente, os processos de reconstrução ainda se entrelaçam com a chamada “cura da linhagem feminina”, prática considerada um misto de reconhecimento familiar e libertação emocional. “A ancestralidade feminina é um portal de sabedoria. Quando nos conectamos com as mulheres que vieram antes de nós e, assim, com suas histórias, traumas e conquistas, acessamos uma força que vai além da razão”, assinala a astróloga e psicoterapeuta, Amanda Rodrigues.
Uma vez que acessar essa energia requer contatos intensos com feridas de diversas origens, a espiritualista afirma que a “cura” — entre aspas, como ela mesma enfatiza, por tratar-se de uma ação de autorresponsabilidade — ajuda a retirar amarras, antes involuntárias, dos vínculos femininos.
“É essencial principalmente para ressignificar os vínculos com mães, avós, filhas e irmãs de sangue ou de alma. Ao olhar para essa linhagem com consciência, abrimos espaço para relações mais livres, autênticas e amorosas com outras mulheres”, completa.
Aliás, quando uma mulher remedia o passado, cicatriza também sua linhagem. Práticas ancestrais femininas seguem sendo transmitidas entre as gerações: de avós para netas, de mães para filhas e até entre amigas. O clássico “minha avó sempre dizia”, geralmente relacionado à saúde e ao bem-estar, é um símbolo desse legado.
Chás, xaropes, banhos e escalda-pés, por exemplo, são técnicas populares que fazem parte de um conhecimento transmitido, principalmente, pelas mulheres. Historicamente, elas são reconhecidas como guardiãs de um conhecimento ancestral por serem responsáveis pelos cuidados dentro das comunidades, mesmo sem a devida identificação por parte da medicina convencional. Benzedeiras, rezadeiras e curandeiras mantêm vivas práticas que, hoje, ganham novo olhar por meio da ciência e de movimentos de resgate cultural.
No Maranhão, mais especificamente na Terra Indigena Arariboia, esse saber descendente é preservado e transmitido por iniciativas como a Articulação das Mulheres Indígenas do Maranhão (Anima). Ali, a medicina tradicional é um elo entre gerações e uma forma de manter viva a identidade local.
É mais fácil dar a mão para quem se parece com você?
Ao redor do mundo, mesmo quando laços sanguíneos ou propósitos espirituais não estão incluídos, as mulheres comumente buscam relações voluntárias entre si. De acordo com a psicóloga americana Shelley Taylor, autora da teoria “Tend and Befriend” (“Cuidar e Conectar-se”), devido às várias funções sociais que desempenham diariamente, elas criaram respostas específicas ao estresse para encarar desafios e defender sua própria sobrevivência: cuidar de suas alianças e também formar novas.
Isso não ocorre porque o cuidado caracteriza um traço natural da personalidade feminina, mas é um comportamento culturalmente imposto às mulheres. Então, em vez de se afastarem ou se envolverem em conflitos, elas se apoiam, usando a compreensão mútua para ultrapassar diferentes tipos de obstáculos.
“Mesmo que tenhamos homens ao redor que irão nos ajudar, é na relação com outras mulheres que vamos nos sentir verdadeiramente seguras, amadas e compreendidas, tendo esse espaço para nos recuperarmos”, acrescenta Palma.
A ocitocina, popularmente conhecida como “hormônio do amor”, é outro aspecto importante para a sustentação das respostas psicológicas provocadas por esses laços. Liberada durante as interações sociais, a molécula causa um impulso químico que promove sensações de confiança e conexão. Esse efeito se torna mais frequente e duradouro nas amizades femininas, zonas que, em geral, privilegiam a preservação dos vínculos e a busca por um terreno comum para a resolução de seus problemas.
Apesar das evidências científicas, nem sempre a procura por afeto e apoio entre mulheres é incentivada — uma das consequências do fenômeno cultural da rivalidade feminina. Jade Míguez, ciberativista e pesquisadora sobre Gênero, Raça e Classe, relata ter ouvido por muitos anos que seus amigos deveriam ser apenas homens. Através do feminismo, como outras pessoas, ela entendeu que o estímulo à competição feminina estava inevitavelmente ligado à sociedade patriarcal.
Existem diversos caminhos para repensar a ideia de que mulheres são adversárias naturais, bem como para conhecer perspectivas plurais sobre as experiências femininas. Um deles é a escuta ativa, que, em um mundo acostumado a silenciar populações vulneráveis, propõe mais que simplesmente ouvir as palavras emitidas por alguém: você deve se concentrar na mensagem, na linguagem corporal, nas emoções e no contexto de cada conversa.
Para Gabriela Toso, presidente da Toda Cidadã, organização que democratiza conhecimentos sobre política, sociedade e cidadania para mulheres, essa tática comunicacional ainda ajuda a identificar e tratar adversidades enfrentadas em países historica e economicamente desiguais, como o Brasil.
“Desigualdades moldam tudo, desde o acesso à justiça até a forma como nos comunicamos sobre esses problemas. Não há nada que possamos fazer sem levar essas desigualdades em conta, seja na comunicação, no acolhimento ou no encaminhamento”, justifica a ativista.
Além de associar a escuta humanizada às ferramentas de comunicação não-violenta, abordagem que visa resolver conflitos de maneira pacífica e construir relações mais saudáveis, é preciso estar disposta a rever suas visões sobre as vivências femininas.
“Não temos acesso à educação histórica a respeito do ‘ser mulher’ na escola além da perspectiva do sufrágio, e algumas de nós não têm a oportunidade de encontrar-se com a história do próprio gênero em nenhum momento da vida. Retomarmos a história de como certas coisas se tornaram naturais para mulheres — o instinto materno, o parto cesariano, a heterossexualidade, o cuidado com parentes, as profissões femininas, a preocupação com a estética — é descolar de uma realidade individual para um agenciamento social”, descreve a psicóloga Julia Almeida.
Em contrapartida, justamente a partir do reconhecimento de que as referências culturais carregam apagamentos relacionados a privilégios de classe, raça e sexualidade, a empatia não pode nem deve ser universalizante. Foi assim que surgiu o conceito de “dororidade”, criado pela professora e escritora Vilma Piedade para representar tensões que não são suficientemente contempladas pela sororidade. Afinal, o gênero é apenas uma das categorias que demarcam as existências femininas.
Outro ponto sensível do debate está nas trajetórias das mulheres trans, que vêm sofrendo ataques sistemáticos a direitos básicos em várias partes do globo, especialmente nos Estados Unidos e no Reino Unido.
“O mínimo de dignidade foi oferecido à mulher cisgênero, de maneira geral, pelo fato de ela ter um útero e ser capaz de dar a luz a uma criança. Então, uma mulher sem útero não atinge nem esse mínimo. São várias as raízes para que pessoas trans, principalmente mulheres, sofram esse processo de exclusão. Acho que só tendo nomes em todas as áreas — música, cinema, ciência, entre outras — para avançarmos na mentalidade social, porque muita gente ainda tem o estereótipo de que pessoa trans estão somente na prostituição. O desconhecimento é um motor para o ódio. Então, nós que acreditamos em um mundo mais justo e igualitário, precisamos, sobretudo, compartilhar informação de qualidade”, analisa Gabriela Augusto, mulher trans e fundadora da Transcendemos, empresa de consultoria em diversidade e inclusão.
A iniciativa, inclusive, surgiu após a transição de gênero da especialista, que se deparou com uma série de desafios ao tentar se inserir no mercado de trabalho e encontrar pessoas parecidas consigo.
Quando mulheres impulsionam umas às outras, percebendo suas potencialidades tanto nas semelhanças quanto nas diferenças, o empoderamento feminino (em seu real significado) também se torna realizável. Assim, mobilizam-se setores financeiros, sociais, jurídicos, emocionais e políticos em prol de dias melhores.
Em escala mais ampla, considerando o poder da internet para promover diálogos equilibrados, as estratégias de comunicação elaboradas por grupos, organizações e produtoras de conteúdo que defendem os direitos das mulheres precisam se dedicar a adaptar cada temática em pauta para, enfim, preencher lacunas geracionais.
“Não dá para ter o mesmo discurso com meninas e com mulheres mais velhas. Acho que sempre tem que haver um planejamento de como abordar. Eu já percebi, nas minhas formações, que dados nem sempre funcionam. Então, às vezes, contar histórias pessoais tem mais resultado”, salienta Toso.
Porém, conforme examina a comunicadora sobre História das Mulheres e Feminismo, Dara Medeiros, as barreiras existentes entre a informação e a percepção pública se ergueram através de múltiplos elementos sociais e culturais, como os meios de comunicação de massa, a Igreja e até mesmo o Estado. Agora, tais instituições também devem assumir a responsabilidade de reconfigurar um imaginário popular tão negativo sobre as mulheres.
Nos ambientes acadêmicos brasileiros, a lógica é semelhante: projetos que suscitam mudanças históricas ainda coexistem com estruturas curriculares insatisfatórias para o avanço das discussões acerca das vivências femininas.
“Temos muitos grupos de pesquisa feminista e de estudos de gênero. Temos nossas disciplinas nos mais variados cursos, nas mais variadas universidades, mas elas ainda não são obrigatórias, mesmo na grade de Ciências Sociais. Nós precisamos que esse conhecimento feminista seja incluído nas disciplinas básicas, para que todos tenham acesso a esses debates e para formarmos profissionais, de fato, mais capacitados em todas as áreas”, pondera Mariana Gomes, historiadora, doutora em Sociologia e docente na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Tecer é uma arte, cada uma faz sua parte
Profissionais qualificados e instrumentalizados transformam a realidade, assim como mulheres em comunidade. Segundo dados do IPEA e da PNAD, elas ocupam 65% dos postos de trabalho em organizações sociais, além de serem quem mais doa dinheiro para causas (41%) e as maiores realizadoras de trabalho voluntário (62%).
“A união entre mulheres é uma ferramenta essencial tanto no sentido do apoio psicológico e da troca de conhecimentos quanto na prática. Quando trabalhamos com outras mulheres, há uma cultura muito forte de compartilhar contatos e recursos. Isso é algo que não percebo da mesma forma nas minhas colaborações com homens”, afirma Toso sobre a rotina na Toda Cidadã.
Em redes femininas de cuidado e solidariedade, também há espaço para a identificação e validação dos limites umas das outras, o que subverte a ideia milenar de que mulheres têm de ser boazinhas e agradáveis. E algumas vezes, lembrar que, quando você precisou, uma igual te inspirou, é o empurrão final para tecer novas fontes de apoio.
Daniela Arrais se descobriu ativista ao fundar o coletivo Dupla Maternidade. No começo da vida do primogênito, Martin, ela e a esposa não tinham referências e não queriam que ele fosse o único filho de duas mães nos lugares por onde passasse. Hoje, o grupo reúne cerca de 1.300 pessoas de todo o Brasil e se encaminha para virar uma organização social.
“Temos várias voluntárias que botam a mão na massa para fazer comunicação, evento, roda de conversa. A gente está vendo um papel importantíssimo, não só para as mulheres mães, como para as crianças, que se veem nas suas configurações familiares numa manhã de sábado num parque. A gente tangibiliza que a pluralidade é a chave para entendermos que o mundo é assim”, avalia a comunicadora.
Entre os ditos e os não ditos, as mulheres absorvem muitas regras de conduta limitantes e contraditórias, que podem ser repensadas na presença de outras colegas de jornada, mesmo em território estrangeiro. Em uma viagem recente para a Colômbia, a jornalista Gabriella Feola esteve em encontros da corporação Vamos Mujer, nos quais presenciou imigrantes venezuelanas aprendendo a serem mais livres com suas vizinhas latinas.
“Havia mulheres que, na situação de migração, estavam sem redes. Elas se fechavam no seio familiar e se tornavam só esposas, só mães, porque migraram ali com o marido e os filhos. E, a partir desse contato com a organização, elas voltaram a se abrir e a ter outros núcleos em suas vidas, pensando em si para além do corpo familiar e se colocando como mulheres independentes”, relembra ela.
Já em situações de violência, um fenômeno estrutural e, portanto, recorrente na história das mulheres, a intervenção feminina faz toda a diferença. De acordo com a psicóloga Priscila Sanches, medidas e equipamentos de ordem governamental que visam proteger às vítimas, como a Casa da Mulher Brasileira, aumentam sua efetividade ao possuírem profissionais mulheres nos processos de acolhimento e orientação.
“Precisamos pensar não só nas nossas existências, mas também em políticas públicas que possam praticar isso. Precisamos nos fortalecer e, quando estamos diante de uma outra mulher, é muito mais fácil, né? Olhamos uma para a outra e temos certeza de que a outra sabe o que estamos falando. Que, em alguma dimensão, ela já sentiu aquilo na pele”, reitera.
De muitas maneiras, em infinitos recortes, a união feminina alimenta e salva. Afinal, as mulheres atuam sob a lógica do “trabalho de formiguinha”: um movimento simbólico, em cadeia e em constante evolução.
Que o sol não seque suas raízes
Em meio às dificuldades e conquistas cotidianas, projetar o amanhã das mulheres é um exercício extremamente valioso. Para Clara Fagundes, doutoranda em Mídia e Cultura na Universidade de Cardiff e fundadora do Instituto Futuro Feminino, existem três pilares essenciais para a construção de horizontes mais positivos.
“A educação é o bem mais precioso que ninguém pode tomar, porque liberta e traz novas perspectivas. A comunicação faz com que esse conhecimento impacte e se torne relevante para outras pessoas. Isso permite que mulheres sejam reconhecidas como referências. E a análise crítica vem para sabermos identificar as armadilhas do patriarcado e deixarmos de considerar ‘normal’ o que prejudica o futuro feminino. As três noções juntas trazem autonomia para as mulheres entenderem o mundo, se colocarem nele e questionarem o que não faz sentido”, explica a especialista.
Quando colocadas em prática, ainda conforme Fagundes, essas ações beneficiam todas em conexão: “as redes femininas trazem apoio emocional, representatividade, networking e um movimento importante: o de mulheres que abrem portas para as outras, acelerando o processo para as que virão depois ”.
O resultado desse esforço, guiado por mobilizações históricas, sociais e culturais, já pode ser visto em dados. Segundo o relatório Os Sonhos Delas, realizado pela ONG Think Olga em 2024, 88% das brasileiras afirmam que puderam sonhar mais do que suas mães e avós, enquanto 65% sentem que seus sonhos são mais ambiciosos do que os de suas ancestrais.
Apesar de não ser um sonho declarado, a liberdade é o caminho para o qual todos os desejos e metas das mulheres entrevistadas aponta. Por outro lado, desistir de sonhar caracteriza uma realidade comum: já aconteceu com 75% das participantes do estudo por diversos motivos.
Nesse contexto, para seguir acreditando na capacidade e no propósito umas das outras, é mais do que válido retornar às nossas origens.
Em quem você confiou por último – e quem pode contar com você agora?
As redes de afeto entre mulheres, embora muitas vezes invisibilizadas pelo discurso social dominante, têm desempenhado um papel essencial na sustentação emocional e prática da vida cotidiana. Em um mundo que ainda insiste em atribuir à mulher o papel da fortaleza silenciosa, estender a mão e aceitar apoio é mais do que um gesto de empatia: é um enfrentamento político, um passo contra séculos de individualismo e competição forçada entre iguais.
O documentário Entrelaços, produção jornalística baseada em histórias reais, surge como testemunho vivo dessas resistências cotidianas. A partir de relatos de mulheres comuns, a obra evidencia como vínculos afetivos são capazes de reconstruir subjetividades fragilizadas por experiências de dor, abandono ou sobrecarga.
É um ensaio sobre amizade, maternidade, cuidado e amparo mútuo que revela não apenas trajetórias individuais, mas dinâmicas coletivas de cura e transformação. Em um mundo marcado pela desconexão, Entrelaços propõe um gesto político: acreditar que estar presente — e ouvir — ainda pode ser suficiente para começar a mudar a história das mulheres.
Quando uma mulher se vê na história da outra, estabelece-se um espaço de aceitação que rompe com a lógica do isolamento. O reconhecimento é capaz de gerar segurança, solidariedade e pertencimento, criando comunidades que sustentam e, muitas vezes, libertam.
Esses vínculos, no entanto, são um processo ativo e contínuo. Daniela Arrais sintetiza essa ideia com precisão: “A gente tem que se fortalecer nas nossas identidades e na nossa categoria, para que a gente consiga ter força para lutar em um mundo que está querendo nos diminuir sempre. Então, lembrar que, quando você precisou, foi outra mulher que te levantou. Que assim seja sempre. E que a gente consiga entender essa força para ter um mundo melhor para todas nós”.
Agora, resta a pergunta: em quem você confiou por último? Foi em uma amiga que soube ouvir? Uma tia que protegeu seu silêncio? Uma colega que defendeu seu nome numa sala cheia? E, diante disso, outro questionamento precisa surgir em cima: quem pode confiar em você agora?
Os laços não se constroem sozinhos. Assim como foram passados de geração em geração os saberes das curandeiras e os conselhos sussurrados entre as paredes das casas, as relações femininas continuam sendo um fio resistente que atravessa o tempo. Eles não apenas sustentam a vida de quem os recebe, mas transformam profundamente quem os oferece.
Na prática, sustentar outra mulher não exige heroísmos: às vezes, basta a escuta atenta, o reconhecimento silencioso, a lembrança de que ela não está sozinha. São gestos cotidianos que, mesmo discretos, têm potência para romper afastamentos e restaurar vínculos. Porque quando uma mulher encontra força para se expressar, ela não fala só por si — ela ecoa dores, memórias e desejos de muitas outras. E, talvez, seja aqui que mora a verdadeira revolução: na coragem de compartilhar o fardo e no compromisso coletivo de não deixar nenhuma para trás.